viagens na minha terra, comédias da vida privada

Declaração de princípios: não tenho o bairrismo entranhado em mim, não levanto a voz pelo F.C.P, divirto-me com a riqueza dos regionalismos, por aí, galgando portugalidade, e não tento disfarçar o sotaque do norte, embora seja, muitas vezes, acusada de heresia, por uma certa dicção intrínseca armada ao perfeccionismo. Para ser rigorosa, no Norte, diz-se: “armada ao pingarelho”.

Preparado, assim, o terreno para me defender de críticos profissionais que possam ver nesta prosa tamanha traição à nação tripeira, dou-vos, generosamente, mais razões para a tese do adultério telúrico: tento ir, com frequência, à mouraria. Terra de luz, dizem, pastéis de Belém, Tejo, bitoques, ginjinha, imperiais e amigos do peito.

Acontece que Lisboa imprime-me certo fascínio, como genuína estrangeira, a roçar uma certa experiência antropológica, não importa as vezes que lá for. Ir à capital é, pois, uma degustação etnográfica digna de um Jean Rouch, com ouvido de um Michel Giacometti ou, para provar o meu amor à pátria, de uma curiosidade cinematográfica à Aurélio Paz dos Reis – pois em dias de FMI, há que invocar um determinado nacionalismo, para parecer bem.

Vou a Lisboa e a vida acontece-me em hiper-realismo, num estado de humor constante. Divirto-me, porque começo a ter certeza de que a cidade do Padrão dos Descobrimentos é um plano sequência de comédias da minha vida privada. E, desta vez, quase me apeteceu entrar numa loja e gritar: “Ó, Evaristo, tens cá disto?”, como se quisesse prolongar a hora do recreio, neste grande Pátio das Cantigas, a ver se alguém me levaria a sério. É que, pesando os episódios generosos que me têm sucedido, começo a acreditar que a cidade que tem um Castelo de São Jorge, lá no alto, foi concebida para mim, qual Lewis Carroll com seu universo fantástico: Vanessa, no País das Maravilhas.

Pensem comigo, a ver se não tenho razão: vou a Lisboa, entro no café para almoçar, peço um sumo de Tutti-Frutti e a senhora traz-me um sumo, já sem cápsula, de Manga, Laranja e Cenoura.

-Desculpe, mas enganou-se. Eu pedi Tutti-Fruti.

– Eu sei, mas não temos; e esse foi o mais Tutti-Frutti que consegui encontrar.

Toma lá que já almoçaste. Eu estava a ser intolerante, claro, e a senhora tinha razão, primava pela maior qualidade, hoje, no mercado dos Recursos Humanos: proactividade.

Outra:

Entro no táxi e tenho o vício de achar que os motoristas dão boas fontes de informação. Meto conversa, inevitavelmente. Só que, ao longo dos anos, como vivi cinco anos no Brasil apercebi-me que meto conversa com taxistas para me sentir segura, de ter a certeza que ele acha que sou simpática e que não me vai raptar. Vícios. E, claro: olho sempre para o registo profissional, nome e matrícula, disponível no tablier. (Espertinha!)

Certa vez meti conversa com um taxista da Gare do Oriente. Era figurante da própria profissão nas telenovelas portugueses. Só há cinco nesta categoria, parece. Acertei na estatística. Que beleza! Conversas como cerejas (e que viçosas e carnudas que elas andam agora, exibidas nas frutarias) e fiquei a saber pormenores das novelas que ainda não passaram, que as produtoras de televisão pagam tarde e a más horas, quem são os actores mais simpáticos e que o Ruy de Carvalho gosta é de almoçar entre figurantes para ouvi e partilhar histórias. Sábio!

No final da conversa, o taxista disse que eu era muito simpática (Ufa!) e que me conhecia de algum lugar! Suspense.

– Sim, Tiago, conhecemo-nos, claro! Deve ser da Televisão.

– Eu logo vi que você tinha pinta de artista de TV.

Uma massagem ao ego não faz mal a ninguém. Despedi-me. Era Lisboa a mimar-me.

Desta última vez que lá fui, vivi histórias à Woody Allen, mas, agora que penso nisso, ocorre-me que bem poderia ser mais ao estilo dos “Gato Fedorento” (é, meus caros, eles andam aí), ou até mesmo um novo programa de apanhados, numa onda revivalista dos anos 90 do século XX.

Precisava enviar uma carta. Entrei nos Correios e pedi um envelope correio Azul.

-Não temos. Só Correio Verde.

– Aqui são os Correios? Envelope. Correio-Azul. Selos. É isso, não é?

– Não temos menina, tem de enviar por Correio Verde.

– O Correio Verde é mais caro e eu quero enviar só uma folha.

– Pois, tem de ir à Papelaria comprar. Aqui não temos!

Cenas dos próximos capítulos: Papelaria: senhora-dizer-que-envelope-e-selo-ter-nos-Correios. (Foi o que eu disse, estão a ver?). Lá vou eu à segunda papelaria do bairro da Graça (ironia de nome, né?) e o casalinho de idosos encafuados no escuro desta outra loja de esquina tem envelope e o último selo de correio azul. Prova superada!

Contente, pago e lembro-me que preciso tirar fotocópia ao meu Cartão de Cidadão. Papelaria: Fotocópias. Lógico, certo?

Não temos fotocopiadora. Para tirar fotocópias, aqui no bairro, tem de ir à Funerária! É lá que eles tratam disso.

Três metros depois e já sei o preço das urnas e caixões, enquanto se tira fotocópias.

Já perceberam onde é que eu queria chegar?

Crónica publicada na revista Fugas, jornal Público, 23-04-2011

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